Uma doente que esbanjava saúde

Em 2008 fiz um estágio em cirurgia de cabeça e pescoço na Santa Casa de Misericórdia, no hospital Santa Rita (hospital de oncologia).

Tive contato com diversos casos terríveis de doentes de câncer. Vi e acompanhei cirurgias que mais pareciam cenas de um filme de terror e estive presente em momentos delicadíssimos de dor, desespero e desconforto. Mas a imagem que mais guardei na memória foi a de uma senhora que eu tive o prazer de conhecer numa tarde de consultas.

Ela era uma pessoa alegre. A primeira coisa que eu lembro dela era a personalidade falante, bem disposta e com um "jeito educador". Ela foi a primeira pessoa do Rio Grande do Sul a ser diagnosticada com Neurofibromatose (NF1), uma desordem genética comum, o que significa que muitos profissionais de saúde se deparariam com no mínimo alguns casos durante suas vidas, mas não o suficiente para se tornarem especialistas. A NF1 surge com o aparecimento de pequenos nódulos cutâneos que podem pressionar nervos e causar muitas deformações, dependendo da gravidade da desordem.

Ela havia marcado aquela consulta pois uns anos atrás já havia tido um nódulo com carcterísticas malignas no pescoço, e necessitou fazer um procedimento super evasivo chamado de esvaziamento cervical. Era um acompanhamento do procedimento que ela havia realizado e um follow up.

Na sala de consultas estava eu e um colega de estágio que era doutorando. Ficamos de "boca aberta" com toda a desenvoltura que ela tinha para se comunicar. Desde sua descoberta da NF1, ela se tornou "embaixadora" de programas de ajuda e esclarecimento para outros casos de Neurofibromatose. Ela viajava o mundo inteiro dando palestras, indo a congressos e aprendendo com as outras pessoas com NF1. Essa pessoa, apesar desse problema, esbanjava saúde. Ela não se sentia doente e muito menos incapacitada. Muito pelo contrário, essa "doença" conforme ela disse, a fez "acordar pra vida". Ela tinha uma vida confortável ($), com amor e carinho dos familiares e entes queridos, podia ajudar e aprender com outras pessoas, estava sempre fazendo cursos e viajando mundo afora.

Apesar dessas atitudes super positivas em relação à vida, no fim da consulta ela nos fez um apelo, para que estudássemos a NF1 para ter mais profissionais capacitados a lidar com casos como o dela.

Um tempo atrás eu já tinha escrito um post no meu outro blog (que está parado a mais de um ano, diga-se de passagem) sobre a NF1.

Aqui está o link da postagem: http://chelleschons.blogspot.com.br/2009/10/neurofibromatose.html

0 comentários:

Postar um comentário

Fique a vontade para deixar seus comentários :)